Dom Quixote: Jhonny Oliveira
3 min.

Dom Quixote e a “instagramização” das relações sociais

Essa exploração, sem rumo algum, servindo a um “deus diabólico”, inconsciente e fetichista, está figurada na epopeia de Miguel de Cervantes, Dom Quixote, partindo de uma análise feita pelo sociólogo húngaro György Lukács em A Teoria do Romance, no qual é feita uma crítica ao “Deus demoníaco”, que institui uma consciência de dominação positiva, um progresso sem rumo, apenas para atender ao que a psicanálise denomina gozo do Outro
Ceará, Brasil
rafaelpaiva@judasasbotasde.com.br

O neoliberalismo do século XXI possui uma característica que o faz distinguir-se do seu passado biopolítico (ao que Foucault estabelece um dilema entre o regime biopolítico e o sistema neoliberal, impossibilitando-o de desassociar um de outro)[i]Foucault inclusive garante aos estudantes do Collège de France, em 1979, intitulado O nascimento da biopolítica, tornando-se uma obra póstuma de mesmo nome, que “(…), apesar de tudo, eu tinha … Ver fonte: a “exploração da liberdade” por meio da “digitalização” das relações sociais, desenvolvendo uma espécie de “fetichismo digital” e uma “reificação tecnológica”, através dos influenciadores digitais. Um digital influencer não nasce por geração espontânea, ele se torna reconhecido na medida que suas publicações agradam os olhares dos que podem vir a ser colaboradores de seu projeto. O número de pessoas que se encaixam nesse papel deve ser ínfimo, pelo fato de trabalhar como um agregador das massas, para atingir os interesses da burguesia. Uma conta no Instagram possui dois lados: uma conta pessoal, que é mais reservada, e a conta “comercial” (utilizada pelos influencers). Esta última possui o termo “comercial” não por acaso. O indivíduo que opta pela segunda opção deixa de ser um “ser humano” e se torna uma “mercadoria humanizada”, cujas relações com seus semelhantes tornam se, ao que Bauman denominará em suas obras: relações líquidas.

O curtir é o amém digital. Quando clicamos nele, subordinamo-nos ao contexto de dominação. O smartphone não é apenas um aparelho de monitoramento eficaz, mas também um confessionário móvel. O Facebook é a igreja ou sinagoga (…) do digital.”[ii]HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução: Maurício Liesen. Belo Horizonte, MG: Âyné, 2018. p. 24

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Instagram, apesar de a diferença dessa com outras redes ser apenas aparente. Ao mesmo tempo que o criador de conteúdo é um “pároco” do Capitalismo Tecnológico, é também uma vítima dele. Desenvolve diariamente inúmeras publicações, publi-posts, colabs, lives etc. com o intuito apenas de atender à demanda cada vez maior do “Capital absoluto”, sob a “penitência” de perder o engajamento daquele dia, que deve ser cada vez mais aumentado, à medida em que o “mandamento” de se seguir um algoritmo temporal (desde a primeira publicação e as subsequentes devem ser postadas no mesmo horário. Se não cumprido, o engajamento – o número de curtidas, compartilhamentos etc. – será reduzido e o trabalho destinado para a produção daquela publicação, terá um retorno menor, será em vão, para atender à demanda do capital. Uma espécie de “mais-valia” digital) é seguido.

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Essa exploração, sem rumo algum, servindo a um “deus diabólico”, inconsciente e fetichista, está figurada na epopeia de Miguel de Cervantes, Dom Quixote[iii]CERVANTES, M. Dom Quixote: vols. 1 e 2. Tradução: Ernani Ssó. São Paulo, SP: Penguin Classics & Companhia das Letras, 2012. 1071 p., partindo de uma análise feita pelo sociólogo húngaro György Lukács em A Teoria do Romance, no qual é feita uma crítica ao “Deus demoníaco”, que institui uma consciência de dominação positiva, um progresso sem rumo, apenas para atender ao que a psicanálise denomina gozo do Outro. Em LUKÁCS (2000), é possível encontrar a crítica às epopeias de cavalaria, escárnio de Cervantes, o ponto exato da loucura adquirida por Dom Quixote, chamada também de “monomania”, em busca de um “sentido” para suas aventuras:

“Assim que o máximo de sentido alcançado em vida torna-se o máximo de ausência de sentido: a sublimidade torna-se loucura, monomania. E essa estrutura da alma tem de atomizar completamente a massa possível de ações. Mesmo que, (…), a realidade externa permaneça intocada por ela e revele-se ‘tal como é’ em resposta a cada ação do herói, nem por isso ela deixa de ser uma massa perfeitamente inerte, amorfa e sem sentido, a que falta toda capacidade de reação planejada e uniforme e da qual a demoníaca sede de aventuras do herói elege, de maneira arbitrária e incoerente, aqueles momentos em que deseja pôr-se à prova.”[iv]LUKÁCS, G. A Teoria do Romance. Tradução: José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo, SP: Duas Cidades/Editora 34, 2000. p. 103.

Levando em consideração o excerto acima apresentado, quando Lukács e fazemos um paralelo com o contexto hodierno das redes sociais, feitas as devidas distinções, é possível encontrar uma semelhança naquilo o sociólogo chama de teodiceia que, na figura de romances de cavalaria na idade média, percebe-se a dependência do Eu ante ao que fora chamado de “Demônio do Meio dia” (acídia). O inconsciente comandando o ser aos moldes de sua era. Com o constante processo de autovalorização do capital é chegar na Era das redes, o que teo torna-se data, uma “Odisseia dos dados”, que reduz o indivíduo ao cansaço, explorando-o gradativamente numa “aventura sem fim”, e condenando-o ao marasmo da alienação no panóptico psicológico (e psicossomático), da exploração e da positividade, que leva ao sofrimento psíquico. O influencer se sujeita a isso e o influenciado também, como mero constructo da massa associada às redes, como o Instagram. De fato, a sociedade está desaparecendo e virando um mero número para o “banco de dados” do sistema capitalista. O ser se encontra preso na monomania de uma aventura automatizada, técnica e depressiva.

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Notas de rodapé

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i Foucault inclusive garante aos estudantes do Collège de France, em 1979, intitulado O nascimento da biopolítica, tornando-se uma obra póstuma de mesmo nome, que “(…), apesar de tudo, eu tinha a intensão de lhes falar de biopolítica, mas, sendo as coisas como são, acabei me alongando, me alongando talvez demais, sobre o neoliberalismo” (FOUCAULT, M. O nascimento da biopolítica. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2008. p. 257)
ii HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução: Maurício Liesen. Belo Horizonte, MG: Âyné, 2018. p. 24
iii CERVANTES, M. Dom Quixote: vols. 1 e 2. Tradução: Ernani Ssó. São Paulo, SP: Penguin Classics & Companhia das Letras, 2012. 1071 p.
iv LUKÁCS, G. A Teoria do Romance. Tradução: José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo, SP: Duas Cidades/Editora 34, 2000. p. 103.

Referências

  1. FOUCAULT, M. O nascimento da biopolítica. Tradução: Eduardo Brandão. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2008. 475 p.
  2. HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução: Maurício Liesen. Belo Horizonte, MG: Âyné, 2018. 124 p.
  3. CERVANTES, M. Dom Quixote: vols. 1 e 2. Tradução: Ernani Ssó. São Paulo, SP: Penguin Classics & Companhia das Letras, 2012. 1071 p.
  4. LUKÁCS, G. A Teoria do Romance. Tradução: José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo, SP: Duas Cidades/Editora 34, 2000. 236 p.

Cite-nos

Paiva, Rafael. Dom Quixote e a “instagramização” das relações sociais. Forca de Judas, Porto Alegre, v. 2, n. 2, 2021. Disponível em: <https://revista.judasasbotasde.com.br/222021/dom-quixote-e-a-instagramizacao-das-relacoes-sociais/>. Acesso em 17-07-2024

88 respostas

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