Vertigo, 1958: Alfred Hitchcock
16 min.

A culpa também não seria do homem comum?

Talvez seja necessário retroceder um pouco para entender o que está acontecendo e por que deveríamos botar o arquétipo clássico do homem comum na berlinda... Podemos dizer que é consenso geral o fato de o planeta inteiro estar passando por uma das maiores superações, quiçá a maior que esta geração já viu
Rio de Janeiro, Brasil
filippopitanga@judasasbotasde.com.br

Um ensaio crítico-social a partir de icônicas personagens construídas pela parceria entre Alfred Hitchcock e James Stewart no cinema, e como sua representação do homem comum é uma crônica sintomática de um mal do século que supostamente exime as pessoas de responsabilidade através da passividade e omissão.

Afinal, por que neste momento tão conturbado deveríamos focar logo no homem comum como epicentro disso tudo? Por que será que a falsa calmaria do olho do furacão demonstraria da melhor forma as razões ocultas por trás das origens da destruição? É como diz a famosa frase: “eu lavo as minhas mãos, porque não fiz nada para contribuir com isso”… Mas o que poderia ter sido feito para impedir a catástrofe? E o que a omissão também pode agir como agente ativo das piores consequências?

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Talvez seja necessário retroceder um pouco para entender o que está acontecendo e por que deveríamos botar o arquétipo clássico do homem comum na berlinda… Podemos dizer que é consenso geral o fato de o planeta inteiro estar passando por uma das maiores superações, quiçá a maior que esta geração já viu. E, não coincidentemente, certo recrudescimento de políticas conservadoras e extremistas tomaram lugar das rédeas do controle da crise pandêmica que estamos enfrentando. Algo quase como se houvesse um entendimento silencioso de que apenas a mão pesada daria conta do apocalipse… o que não é bem verdade. Nada verdade, para ser bem claro.

Não só numa das maiores potências de influência internacional como os Estados Unidos, mas especialmente também no Brasil, os números alcançaram recordes incomparáveis de perdas. Tudo por causa do negacionismo e efeito de rebanho, por pessoas comuns que seguiram cegamente o caos total ao invés dos protocolos de segurança devidos. Não eram pessoas necessariamente mal intencionadas, nem antiéticas, somente pessoas comuns que, ao se isentarem ou se retirarem do cômputo da responsabilidade perante o coletivo, contribuíram para algo sem precedentes.

Estamos passando por uma sina que pode ser mortal, sim, mas cujo potencial de risco foi, na verdade, ampliado por negligência de um desgoverno brasileiro que fez alcançar recordes negativos assombrosos perante o restante do globo. Um desgoverno que precisa ser responsabilizado por crimes contra a humanidade que potencializou o perigo agora para mais de 400 mil mortes até o momento. Mesmo para quem tivesse todos os recursos e infraestrutura, vimos inúmeros exemplos de como o grau de risco foi ampliado pela negligência dos poderes públicos pra além de quaisquer ilusões de segurança, para além de quaisquer abismos de classe ou de disparidade social.

Mas os representantes que estão no poder alcançaram tal status por conseqüência do voto, da eleição pelo crivo popular. E não só pelos votos declarados, mas também pelos nulos e votos em branco. A ausência de ação também é uma escolha, ou seja, poderia ser computada nas conseqüências decorrentes com o mesmo peso de uma ação ativa. E pessoas que se isentam historicamente não são novidade na causalidade de ingredientes do caos. Vide ocasos que o próprio cinema e as artes em geral já retrataram na ficção e até em registros inspirados em fatos reais.

Talvez um dos maiores cineastas que concebeu linguagens específicas para colocar o homem comum como pivô inadvertido de intrigas internacionais foi Alfred Hitchcock. E seu intérprete a encarnar mais biótipos arquetípicos do bom moço, aquele que poderia ser confundido com nosso vizinho ou um parente, de tão próximo ao simbolismo tido como popular, decerto era James Stewart, o sinônimo de “Guy next door”, como se fala em língua inglesa. Foram ao todo 4 filmes juntos, alguns dos maiores clássicos do mestre do suspense: “Festim Diabólico” (“Rope”, 1948), “Janela Indiscreta” (“Rear Window”, 1954), “O Homem que Sabia Demais” (“The Man Who Knew Too Much”, 1956) e “Vertigo – Um Corpo que Cai” (“Vertigo”, 1958).

Porém, as aparências muitas vezes enganam. E, escrutinando mais de perto, podemos perceber que por trás da suposta inocência e pureza destas personagens universais, alheias ao peso da História com H maiúsculo, existia uma negligência que ao mesmo tempo poderia ser responsabilizada pela omissão. É costumeiro vermos personagens construídas sob o arquétipo clássico da Jornada do Herói (inspirado no livro “O Herói de Mil Faces” de Joseph Campbell, 1949), um conjunto de regras que norteiam roteiros desde os clássicos até filmes contemporâneos, e um marcador bastante comum de ser identificado é a autoindulgência de protagonistas que ignoram e se isentam das consequências de seus atos, como se tudo fosse obra do destino. Às vezes chegam a se vitimizar ou culpar uma força maior, algo metafísico, por suas desgraças, sem se responsabilizar pelo que de fato deram causa… Talvez só no final da história.

Eis que alguns cineastas na história, como Alfred Hitchcock, entenderam esta complacência com suas personagens, e passaram a exercer um olhar crítico a elas, de modo a aquiescer a centelha da autodestruição que elas carregam, e ampliando o potencial da tragédia de forma mais pura. Suas personagens passaram a abraçar suas fissuras e falhas num mergulho total de suas paixões destrutivas. Elas são queimadas pelas próprias chamas, numa crônica denunciativa de suas próprias temeridades, tornando-as mais ricas e tridimensionais perante as falhas humanas reais.

E uma destas personagens mais falhas e ironicamente trágicas do mestre do suspense foi encarnada de modo tão genuíno consecutivamente pelo brilhante ator James Stewart. Quatro filmes em que a dupla destilou os efeitos que costumam passar despercebidos sob os privilégios do homem comum, como a soberba, a arrogância, o orgulho, a xenofobia, a inveja e o ciúme, além daquela velha intromissão enxerida de quem não duvida que as regras da estrutura social foram feitas para si, então nenhum impedimento poderia segurar ou restringir a história de sua vida a transbordar e atropelar a dos outros.

Não que a Jornada do Herói renegue em qualquer momento que seja apenas um ponto de vista autocentrado, uma “egotrip” guiada por uma única perspectiva condicionante, onde tudo passará por esse caleidoscópio individual que restringe outras óticas. Até poderia ser uma baita responsabilidade de cada protagonismo que construímos ter de ostentar o ônus de uma história inteira… O que é irônico, ainda mais se falando de Hitchcock, pois ele não era estranho a matar suas personagens principais e enganar a percepção da plateia. Vide “Psicose” (“Psycho”, 1960).

Talvez por isso mesmo, não por acaso, o primeiro filme com Stewart, no trabalho conjunto de ambos, foi o audacioso “Festim Diabólico” (1948). Uma ousadia cinematográfica por inúmeros fatores, o mais lembrado provavelmente sendo a filmagem fitando um plano-seqüência. Para quem não está acostumado com a expressão, isso significaria que o filme teria sido rodado todo de uma vez só, sem cortes. Mas pra quem conhece melhor o filme, sabe que ele possui sim pequenos cortes escondidos, e apenas finge magistralmente que seria um plano completo, desprovido de edição ou interrupção, como no teatro, por exemplo.

Ou seja, para a sétima arte, independente de como se faz, o que realmente importa é a ilusão de como se vê. E num suspense de apartamento, cuja câmera não sai de dentro de quatro paredes por toda a projeção, é ainda mais claustrofóbico acompanhar aquela narrativa em diálogos confinantes entre os quais podemos ver absolutamente tudo o que acontece ali dentro. Os respiros, os silêncios, os cochichos e o que se entreouve de soslaio, tipo bisbilhoteiro. É quase um palco, de cima do qual não há escapatória para a imensa culpa carregada ali, pois no cinema nem coxias existem entre o paredão da câmera e do cenário, sem lugar para fugir.

Para quem talvez não se lembre inteiramente da trama, dois jovens (Farley Granger e John Dall) assassinam um terceiro amigo de faculdade apenas pelo puro motivo de se acharem capazes de cometer o crime perfeito. Hitchcock ainda nos brinda com algo extremamente vanguardista, uma cumplicidade a mais na trama, que não é algo explícito, porém confirmado ao longo da história: A dupla de assassinos é um casal homoafetivo, o que, para as representações modernas, poderia até parecer uma construção negativa de dois homens que para se amar livremente teriam de ser os vilões do filme – afinal, estamos em plena década de 40, quando questões de sexualidade ainda eram veladas.

Porém, para o cineasta, o que importava era o lado psicanalítico do afeto, da cumplicidade e da confiança recíproca, pois, para matar apenas por um ímpeto intelectual e racionalmente frio, desprovido de motivação passional perante o terceiro, ele cria um vínculo inexorável entre os parceiros de crime, e que se amplia ainda mais quando acrescentamos a figura paterna a que ambos vão evocar, justamente na pessoa do professor deles, interpretado por James Stewart. É a este que será creditada a ideia de se desafiarem a cometer o tal crime perfeito, enforcando o amigo com uma corda na primeira cena do filme (e por isso o título em inglês é “Rope”, como se o filme fosse dando corda para eles próprios se enforcarem, nas palavras de nosso ditado popular)… Sendo que depois desse ato atroz, eles convidam não só o professor como várias amizades em comum com a vítima para uma festa, de modo a quererem provar que ninguém descobriria nada.

E os desafios da obra não param por aí, pois se um protagonista quer dizer aquele que guia a trama, dono do ponto de vista pelo qual somos guiados, aqui temos a personagem central de James Stewart demorando um bocado para ser apresentada e entrar em cena, já que os convidados da festa vão entrando aos poucos. Sem falar que, vejamos, diante de todos os ingredientes para o desastre, ainda temos o cadáver escondido num baú bem debaixo do nariz de todos, em cima do qual, inclusive, será servido o lanche da tarde.

Com isso, pra uma pessoa de caráter aparentemente ilibado na figura do professor, alguém da mais alta estima e reputação em seu meio, que falava de arquétipos perigosos para a sociedade de modo puramente hipotético e imune a conseqüências, onde teorizar sobre a figura do crime era apenas testar as fronteiras da legalidade para reforçar a resiliência da justiça, e não o contrário, imagine ver a sua fé no ordenamento jurídico ser testada…? Ainda mais sendo provocado com pistas o tempo inteiro justamente pela admiração que os dois alunos possuem por ele, os quais acreditam piamente na inspiração do mestre e que, se ele descobrisse, no máximo dos máximos sentiria orgulho deles por colocarem sua teoria à prova?

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O desmoronamento moral de um simples professor que não percebeu as conseqüências de seus atos e se sente tão responsável quanto os dois alunos que de fato colocaram a corda em torno do pescoço do terceiro é a coisa mais interessante de se ver no filme. O quanto aquela personagem se achava isenta da história, por achar que apenas lidava com tubos de ensaio no laboratório da vida, é o tamanho da responsabilidade histórica que todo cidadão carrega ao não medir que suas teses possuem efeitos práticos na sociedade, e que a inação ou omissão da prática, apenas por pensar tudo no campo das ideias, sem acompanhar estas de atos palpáveis, pode gerar um vórtex perigoso a ser preenchido por más intenções. Ao final do filme, sem spoiler, podemos até ver a solução da trama criada por seu diretor. No entanto, muito distante de um final feliz, ambos os lados perdem moralmente falando, mesmo que alguns atos possam ser reparados e outros não.

Vale denotar uma característica que até agora pode ainda ter passado despercebida, mas James Stewart era um indivíduo de 1,91 de altura, acima da média da época no cinema, e levantava a questão de o quanto pesa uma pessoa na sociedade, justamente porque o ator representava normalmente um sujeito comum: Qual seria o peso de um indivíduo no coletivo? Sem falar que o tamanho de Stewart sempre representava um desafio em cena para equilibrar o peso e tom de cada quadro. Imagina o quanto deve ter sido desafiadora a tensão de manter quase 2 metros dentro de um enquadramento que supostamente não possuía cortes, todo em plano-seqüência… Esses tensionamentos eram ideais para que sua persona ocupasse um ponto de fissura ancorando os conflitos na tela.

Pois Hitchcock passaria a usar de forma literal as vicissitudes do tamanho do ator, tanto literal quanto figurado. Em seu filme seguinte, “Janela Indiscreta” (1954), o diretor colocaria a altura e porte de nosso típico sujeito ordinário à prova. Na pele de um fotógrafo internacional, que vai desde coberturas de guerra à adrenalina desportiva, sempre buscando emoção, nosso protagonista interpretado por James Stewart desta vez está na cadeira de rodas, imobilizado com a perna totalmente engessada e a coluna travada. Confinado em seu apartamento (ou seja, mais um filme que se passa predominantemente entre quatro paredes), ele coloca todas as suas inseguranças para fora de casa, ignorando as relações de verdade (como a namorada que o visita regularmente, encarnada por Grace Kelly), e transmitindo suas paranoias nos vizinhos que ele bisbilhota de binóculos pela janela.

Esta forma intrometida de se envolver com a história de outrem demonstra de plano a prepotência que uma simples pessoa pode ter na sociedade. Quem nunca ouviu a máxima do efeito do bater de asas de uma borboleta, cujo vento pode se tornar um furacão do outro lado do mundo? Isso quer dizer que até minúsculas ações podem escalonar numa avalanche. Cada ato possui conseqüências sim. E, da forma que Hitchcock estava encantado com a psicanálise na época, como com o experimento “Quando Fala o Coração” (1945), quando convidou Salvador Dalí pra dirigir um segmento de seu filme, que representava o mundo da hipnose e do sonho induzido a metaforizar nossas maiores angústias e medos, em “Janela Indiscreta” as inseguranças da personagem principal se tornam projeções, de modo a que os problemas alheios seriam analogias com os seus próprios… Da vizinha solitária que aguarda o marido voltar, ao pianista compositor que não consegue finalizar sua última criação, e até a misteriosa briga de um casal em que um homem parece fazer desaparecer com a companheira.

Tudo o que é visto nas janelas ao redor, a partir do momento em que a cortina é levantada, passa a ser um espetáculo fragmentado da psique do homem comum, paranóico, acreditando que o mundo gire em torno de seu umbigo. Como estamos falando de uma era naturalmente convulsiva, após a Segunda Guerra Mundial e em meio à Guerra Fria e ao Macarthismo norte-americano (expressão proveniente da perseguição que o Senador McCarthy simbolizou a tudo o que fosse diferente do imperialismo do capital nos EUA, ao que chamavam qualquer discordância de traição ou comunismo), eis que até as ações do indivíduo mais insignificante poderiam suscitar repercussões profundas em feridas abertas. Era uma época de caça às bruxas e inquisições a vizinhos ou mesmo familiares. Ninguém estava seguro (lembra talvez alguma coisa no Brasil atual?).

Portanto, tornava-se extremamente coerente ver as maiores teorias de conspiração do protagonista de fato se tornarem verdadeiras, especialmente quando colocavam terceiros em perigo, como sua própria namorada, já que ele a tudo observava de seu pedestal sem se deslocar ou ser tocado pelas repercussões de seus atos – pelo menos não até o fim. E, para construir isso, Hitchcock montou o maior set de filmagem em sua vida. Uma espécie de instalação, no dispositivo mais gigantesco de sua carreira. Ele erigiu a fachada das costas de prédios contíguos, que formam um pátio interno e circular entre eles, de modo a que Stewart esteja sentado em seu apartamento tão preso quanto a plateia está na sala de cinema, e fazendo com que as cortinas se abram (literalmente) para a história começar. Todas as janelas da frente, que podem ser observadas ao mesmo tempo em que as outras acima, abaixo ou ao lado também se dispõem a bel prazer do espectador, formam um mosaico psicológico de vícios e costumes típicos, que vão implodir sob o olhar obcecado do observador…

Será que nossa rotina também não padeceria das mesmas falhas se colocada numa lente de aumento que não escapulisse nenhum detalhe, ainda mais se descontextualizado? Um verdadeiro panóptico, segundo o pensador Michel Foucault, ou como um Big Brother numa visão mais moderna de se viver cercado de câmeras e internet (tanto no livro “1984” de George Orwell que cunhou o termo primeiro, ou no reality show homônimo). Porém, a real surpresa é que o final não seja tão negativo assim… Seu protagonista satisfaz sua paranoia e aparentemente não gera qualquer mal pior…, apesar de acabar com as duas pernas engessadas ao final… – Uma boa metáfora para a mente desarranjada com o corpo tolhido, e ainda mais dependente de sua companheira, cujo último quadro do filme demonstra a emancipação feminina em divergir, enfim, da pesada ótica do seu amado que até então lhe restringia por aprovação.

Por falar na relação de casais, esse arquétipo dos tipos comuns será levado a outro extremo de encontros e conflitos com as fronteiras do próximo, do outro. Quem é o outro? Porque somos nós mesmos, e por nós nos definimos, conseqüentemente definindo o mundo que vemos com nossos próprios olhos, estaríamos de alguma forma hierarquizando aquilo que estivesse fora de nosso radar como menos valioso? Como menos importante? Seria esta vida que não a nossa mais descartável? Perguntas bastante perigosas, especialmente dependendo do ponto de vista referencial… E é com “O Homem que Sabia Demais” (1956) que Hitchcock expande o horizonte daquele padrão social anterior para além mar, em outros continentes. Numa refilmagem do próprio diretor para seu filme homônimo de 1934, acompanhamos a história de um casal (Stewart e Doris Day) que viaja com o filho para o Marrocos, entre a famosa Casablanca, já eternizada em filmes da Hollywood clássica, para Marraquexe. A altura do protagonista volta a ser uma questão, ainda mais com mesas em que as pessoas precisam se sentar ao chão, comer com as mãos, além de outros costumes que testam o casal estrangeiro perdidos na tradução das diferenças…

E não se reduz somente a um problema de comunicação ou de línguas diferentes. À luz de todas essas idiossincrasias que um turista olha apenas pelo viés do encantamento ou do estranhamento, sem entender como vivem as pessoas ou como elas se sentem, a trama acaba engolfando as personagens tão constrangidas e supostamente vulneráveis num ambiente que subestimam em meio ao seqüestro do filho e de uma chantagem internacional. Eles são confundidos com outro casal que seriam espiões num jogo de xadrez destinado a assassinar um estadista estrangeiro, colocando dois simples cidadãos como pivô do destino de nações, que poderiam entrar em guerra como decorrência de um incidente diplomático como este.

Evidente que ainda se trata de uma trama de Hollywood, até porque a refilmagem já foi gravada na fase norte-americana de Hitchcock, enquanto o original foi de suas raízes londrinas. A estética e expressão artísticas foram indubitavelmente atravessadas pela cultura e lugar onde estivesse, inclusive com “happy ending” – mesmo com toda sua experiência irretocável de montagem que eleva a simplicidade deste exemplar para um patamar acima. Vide a brilhante cena do anfiteatro, com a orquestra diegética marcando o ritmo da execução do plano de assassinato, e frustrada por um grito de sua protagonista feminina com agência ativa (numa cena decupada de forma similar à do chuveiro em “Psicose” (1960) e “Os Pássaros” (1963). Ou mesmo a seqüência final, intercalando o resgate do seqüestro mais uma vez por narrativa musical no gogó de Doris Day ao som de “Que Sera, Sera” (“What Will Be, Will Be”).

Imagine só! Um cidadão ver cair em suas mãos a responsabilidade de tal alcance na política global… Uma pessoa poder mudar o curso da história, e todos seguirem feito gado as manipulações no tabuleiro das massas… Um desentendido guiar o curso de todas as coisas… Sim, pessoas até com melhores intenções já fizeram pior, imagine, então, as pessoas comuns mal intencionadas? Ou cujas ações apenas prevejam o que seja melhor para si mesma? Parece muito com um quadro geopolítico de crescente conservadorismo que estamos vendo no planeta atualmente, de Trump a Bolsonaro. Cada um por si e que o último a sair do barco afundando que apague a luz ou afunde com ele.

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Isto posto, não deixamos de poder afirmar que Alfred Hitchcock seguiu até aqui um modus operandi de narrativas bastante tradicionais, apenas mudando os dispositivos e ferramentas através dos quais contaria a sua jornada do anti-herói atrapalhado que é confundido ou mal entendido e tragado pelo vendaval… Isso não era novidade em sua filmografia prévia, sob a égide da qual refinaria o arquétipo da vítima obtusa do acaso, como em outras produções, há de exemplo “Ladrão de Casaca” (“To Catch a Thief”, 1955) e “Intriga Internacional” (“North by Northwest”, 1959), ambos com o astro Cary Grant no lugar de James Stewart. E é compreensível o porquê de trocar os atores nesta situação, afinal, trata-se de dois filmes mais leves, até cômicos e românticos em certo grau, e Grant aparentava possuir mais malícia com sua canastrice típica de galã. Por isso mesmo a parceria entre o diretor e seu maior ator-assinatura não podia ser encerrada sem um grande estouro bem mais complexo!

Estas personagens auto-indulgentes e responsáveis pela tragédia do próximo não poderiam sair impunes para sempre. O que elas teriam a perder? Quando pagariam o preço? Existe sim um olhar crítico do cineasta em avaliar o quanto as personagens, em suas visões debilitadas e debilitantes da vida, não poderiam escapar de sofrer aquilo a que deram causa na teoria do caos. E por isso mesmo o longa-metragem mais cáustico e brilhante ao mesmo tempo do mestre do suspense muitas vezes seja considerado “Vertigo – Um Corpo que Cai” (1958).

Uma obra repleta de reviravoltas, sobre as quais não irá se abordar aqui, pois o objetivo do texto não é o spoiler, e sim abraçar a tragédia do homem comum como confissão de sua admissão de culpabilidade no apocalipse atual, por analogia, através do mais comum dos comuns: as personas de James Stewart no cinema. E no clássico agora em questão, mais uma vez dirigido pela perspicácia mordaz de Hitchcock, eles escondem um filme dentro do outro dentro de outro.

Primeiramente, somos introduzidos a uma história quase de fantasmas… Um empresário contrata seu amigo como detetive particular para investigar sua esposa, que estranhamente anda aparentando um comportamento suicida (estaria ela sendo assombrada por espíritos de uma antepassada que também havia se suicidado?)…  Porém, as coisas nunca são o que aparentam. Vale dizer que logo a primeira cena de abertura explica que o protagonista de Stewart era um policial renomado, até que um incidente perseguindo criminosos por telhados de prédios lhe causou a doença de acrofobia (medo de altura), ou seja, no bom português, labirintite. E isto faz com que sinta vertigem sempre que esteja em grande altitude – fator utilizado pelo filme para colocá-lo na beira do precipício psicológico e moral em seu pedestal de homem comum.

Estes elementos por si só seriam básicos para qualquer filme policial ou noir, com uma femme fatale que se preze na tela (Kim Novak), da qual jamais sabemos a real intenção. Nas mãos de qualquer outro diretor poderia apenas ser um mistério facilmente solucionável. Porém, nas do consagrado cineasta em foco, ele transforma uma investigação num caso de amor e de decepção, onde os sentimentos investidos não correspondem com a verdade que está sendo manipulada. Basta dizer que a grande revelação da projeção não vem ao fim, e sim na metade, fazendo com que suas personagens, ao descobrirem toda a verdade umas das outras, abracem por completo suas próprias paixões que caíram em desgraça, preferindo não perdoar a si próprios e um ao outro e queimar apenas de vingança ao invés de viver seu amor cegamente.

Para narrar tal roteiro tão intrincado, Hitchcock inova inúmeras técnicas de linguagem, inclusive um efeito de câmera para emular a sensação labiríntica do protagonista, que viria a ser chamado de Dolly: uma câmera é colocada em trilhos na direção de um objeto ou pessoa, usando de uma lente grande angular para concentrar o centro da imagem no foco e distorcer o entorno, de modo a parecer que o quadro do filme se torna de borracha. Ou seja, cenários se aproximam ou se distanciam como se fossem de elástico, quando é a lente e o movimento da câmera que dá esta sensação de vertigem.

Além disso, todos os filmes de Hitchcock com Stewart são coloridos, mesmo que o diretor ainda trabalhasse em preto e branco naquela época (vide “Psicose”, de 1960). Mas nenhuma de suas obras ousou tanto em narrar a história com as cores como o derradeiro trabalho da dupla em conjunto.  Existe um poderoso uso do contraste principalmente entre vermelho e verde no filme “Vertigo – Um Corpo que Cai”, realçado pelo tom amarelo platinado das madeixas de Novak, bem como da mudança radical nas roupas que sua personagem usa ao longo do filme, desde o cinza e azul claro a cores mais quentes e fortes que dizem respeito à mudança da dissimulação ao amor verdadeiro…

Afinal, há um romance real ali contido, mas cujo verde do perigo, do veneno, da ameaça constante da verdade se sobrepõe ao vermelho das paixões, do fervor de desejo ao ódio da desídia. – mesmo que o filme fosse mudo, apenas a palheta cromática já diria tudo isso, dispensando quaisquer diálogos. É até curioso pensar neste longa-metragem como um filme sem falas… Se analisássemos apenas as imagens, iríamos encontrar todos os sentidos e códigos decifrados na potência dos gestos, dos olhares (muito plano-detalhe e closes aqui bem aproveitados), além do uso inteligente na desconfiança trocada entre contra-planos e headshot (tomada de rosto, com a câmera focando apenas a cabeça, vide as cenas em que o rosto de Stewart gira em caleidoscópios, como mais uma forma de materializar sua labirintite). Mesmo olhando um diante do outro, mirando dentro de nós mesmos na retina de nosso próximo, ainda assim não conseguimos confiar em outrem ou baixar nossa guarda e perdoar.

E este verde doentio, radioativo, inebriante é o mesmo que infelizmente começou a ser ressaltado também no Brasil desde que as cores de nossa bandeira foram cooptadas por partidos que não possuem o digno interesse da população em mente… Não como um quadro integrado e completo, muito pelo contrário, apenas defendendo privilégios para alguns e ônus para muitos. Mas a falsa promessa pela distribuição de privilégios iludiu boa parte da população a comprar o que estava sendo vendido, mesmo em detrimento de seu próximo, de seu vizinho, ou até de seus próprios familiares – nunca vimos tantos parentes cindirem relações em decorrência de política como na atualidade. E tudo porque o indivíduo comum quer ser especial. Quer ter mais que o outro. E esquece que o verdadeiro trunfo do comum é a partilha, é compartilhar de algo que é comum a todos, que não pertence a ninguém e ao mesmo tempo a todo mundo.

Comum é o radical de comunidade, de comungar, de comunicar, de comuna… de comunismo. Do que deveria ser comum a todos, e não privilégio de alguns. Algo aconteceu na história a deturpar o significado das palavras e seqüestrá-las para usos distantes de suas intenções originais. O homem comum se achou mais importante do que o todo, e pensou que o próximo não poderia ter o mesmo que você, pois só assim algo lhe faria especial. Melhor. Destacado. Ledo engano, pois é apenas na união e no corpo coletivo que de fato se têm alguma força. Os maiores erros da personagem de James Stewart foram de apenas querer se jogar sozinho, quando apenas nos 2 filmes em que ele de fato abre mão de seu egoísmo e egocentrismo para pedir auxílio às pessoas de seu entorno é que suas personagens não ganham os piores finais.

Só que estamos aqui falando de cinema. Roteiro. Filmagem. Happy ending. Na vida real não tem volta, só se houver o perdão, a redenção do herói ou do anti-herói… E a população rachada pela política e a pandemia vai ainda ver alguns anos de reparação até conseguir se conciliar em torno de um objetivo compartilhado novamente e de uma revolução positiva. Tudo culpa das pretensões e delírios do homem comum. Comum não, ordinário. “Comum” ele deixou de ter o direito de ser quando se renegou a comungar. Quem diria que Hitchcock é que teria razão.

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Pitanga, Filippo. A culpa também não seria do homem comum?. Forca de Judas, Porto Alegre, v. 2, n. 2, 2021. Disponível em: <https://revista.judasasbotasde.com.br/222021/a-culpa-tambem-nao-seria-do-homem-comum/>. Acesso em 17-07-2024

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