The Nightmare: Jhon Henry
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Elogio da solidão: sobre o amor e a sociedade

Inicio este breve ensaio com uma citação da melancólica obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, Johann Wolfgang von Goethe, de setembro de 1771, portanto, uma obra do período clássico do romantismo alemão, à luz de outros escritores da nostalgia idealista como Schlegel e Novalis
Ceará, Brasil
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“Sem dúvida, você tem razão, meu bom amigo: neste mundo haveria menos sofrimento se os homens (só Deus sabe por que eles são assim!) não se ocupassem, com tanta imaginação, em fazer voltar a lembrança das dores passadas, em vez de suportar um presente tolerável” (GOETHE, J.W. p. 13)[i]GOETHE, J.W. Os sofrimentos do jovem Werther. 2 ed. Tradução: Leonardo César Lack. Coleção: Clássicos Abril Coleções, vol. 7. São Paulo, SP: Abril Cultural, 2010. p. 13

Inicio este breve ensaio com uma citação da melancólica obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, Johann Wolfgang von Goethe, de setembro de 1771, portanto, uma obra do período clássico do romantismo alemão, à luz de outros escritores da nostalgia idealista como Schlegel e Novalis. Mas o livro do fim do terceiro quartel do século XVIII possui uma característica exterior, nostálgica, que influenciará demais poetas no decorrer dos séculos, ao mesmo tempo que provocará uma espécie de antítese lírica no início do século XX com Stefan George.

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Essa pequena citação, da primeira página da grande obra deste escritor alemão, tem por principal objetivo demonstrar a complexidade daquilo que vulgarmente tentamos compreender como algo fácil (devido a sua idílica exterioridade): o amor. A droga mais inebriante, na maioria das vezes não utilizada para fins sentimentais, mas para fins de consumo. De acordo com Lukács em um ensaio datado de 1907, os românticos:

“buscavam seu próprio Eu, ainda que parecessem trilhar outros caminhos, e o ritmo dessa busca cria proximidades e parentescos, mas não uma igualdade de direções. (…) Apenas o senso rítmico e a sensibilidade para sincronizar os tempos (esses dois conceitos significam a mesma coisa) são necessários para que as dissonâncias desapareçam.” (LUKÁCS, G. p. 91)[ii]LUKÁCS, G. A Alma e as Formas. 1 ed. Tradução: Rainer Patriota. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2017. p. 91

E é nessa análise que o amor adentra à obra de Goethe, a busca pelo Eu, o senso rítmico que o alemão trata em suas páginas, no decorrer de suas cartas endereçadas a seu amigo Wilhelm, ao mesmo tempo que sua sensibilidade ao escrevê-las, o elogio à solidão: “A solidão é para minha alma um bálsamo precioso neste paraíso terrestre” (GOETHE, p. 14)[iii]GOETHE, J.W. Os sofrimentos do jovem Werther. 2 ed. Tradução: Leonardo César Lack. Coleção: Clássicos Abril Coleções, vol. 7. São Paulo, SP: Abril Cultural, 2010. p. 14. A busca do Eu, do ego, em meio ao idílio do mundo exterior. Goethe mostra tal procura a seu modo, a seu ritmo, a sua história. O amor é solidão, melancolia, portanto, significante à vida, ao Eu.

O amor que se conhece na literatura, no cinema e na vida em sociedade é um amor vulgar, profano, de compreensão alienada, jamais ontológico. Apenas os hereges históricos, subjugados por suas ações e formas de expressão filosóficas do inconsciente, souberam a significação tácita do que seria o amor. Todos mortos por suas palavras. Alguns “no meio de nós”. Estes últimos, flagelados pela confissão, pelo propósito que vieram realizar na terra.

A confissão para outrem jamais é completa, por isso não será possível confessar-lhes a interpretação desse jovem estudante sobre o amor. Nenhuma confissão está livre do suplício das palavras.

Nenhuma confissão revela o que há de mais intrínseco em sua significação inconsciente. Lukács, num ensaio escrito em 1908, intitulado , descreve a lírica da confissão na poesia de Stefan George:

“A lírica de George é uma lírica casta. Ela extrai das vivências apenas o mais geral, o simbólico, privando, assim, o leitor da possibilidade de reconhecer os detalhes da vida íntima. (…) Ele fala somente de si ao falar do mais profundo, do mais recôndito, tornando-se, a cada confissão, ainda mais misterioso, escondendo-se ainda mais em sua solidão. E ao lançar os raios luminosos de seus versos sobre sua vida, ele apenas nos distrai mediante um jogo de luz e sombra, mas nada revela de si.” (LUKÁCS, G. p. 133-34)[iv]Idem, p. 133-34

Já em George, o Eu se mostra mais específico, isto é, a solidão do ego (no caso, a personagem da lírica georgiana) se mostra mais recluso à sua própria busca de significação. O outro encontra pistas que revelam trechos exteriores da personagem, mas não revela sua construção ontológica, o ritmo e a sensibilidade apenas revelam características vulgares do eu lírico, fáceis de obter uma interpretação fiel. Mas numa confissão, nem tudo é revelado e interpretado. O abstrato toma conta da concepção de verdade, e confere ao leitor um tom misterioso.

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Essa é a lírica da confissão, que impede o suplício final. Em Goethe, o suplício é total e exterior, o que se mostra nítido no comportamento do jovem Werther. Aqui, a solidão é modelada à sua época, aliena o outro ante sua exterioridade, e mantém o forte teor melancólico da poesia alemã do início do século XX.

Aqui, no presente artigo, realizo um elogio à solidão, uma ode ao amor, portanto, uma ode à melancolia ante o idílio do mundo profano. A confissão perpassa os limites dos dogmas da sociedade capitalista em sua contemporaneidade positivista. Amar é dialogar com a solidão, é viver a completude da nostalgia. O amor é a solidão significante da vida em sua lírica mais trágica. A frase de Rainer Maria Rilke “Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra.”, é o ponto clímax desse melancólico ensaio, pois a solidão dialógica, o amor entre dois seres, que reproduz um sentimentalismo quase shakespeariano, num ritmo que termina com o abandono de ambas as partes para a completude de suas individualidades, se estrutura num sistema de interpretações da vida subjetiva, em combate com a vida idílica.

O amor se transforma ante o aprisionamento da confissão do ser, da interpretação de sua natureza, e a natureza do amor é poética, rítmica, dissonante e consonante, é intensa, da mesma forma que Lukács viu a poesia:

“A poesia não pode viver sem dissonância, pois sua essência é o movimento, e todo movimento tem de ir da dissonância à consonância e vice-versa.” (LUKÁCS, G. p. 159)[v]Ibidem, p. 159

O amor é sempre poético, combate aquilo que o aprisiona, fortalece-se com a fraqueza de seu criador: a nostalgia:

“Na vida, a nostalgia se converteu em amor, e agora o amor luta por independência contra seu senhor e criador. (…) O amor é mais forte na luta que a nostalgia; na maioria das vezes, o que desperta a nostalgia é uma fraqueza. Uma fraqueza inconsciente de sua fonte e que só por isso sente a si mesma como fraqueza.” (LUKÁCS, G. p. 149)[vi]Ibidem, p. 149

A fraqueza da nostalgia é inconsciente, por isso Goethe se mostra tão inconformado com a ocupação dos homens em reviver o passado. O escritor alemão tenta se desvencilhar da nostalgia, da fraqueza, com o intuito de alcançar o amor. Mas, como todo humano, se vê na constante luta da dialética do amor com a melancolia do passado.

A síntese dessa luta constante é, portanto, a chave para o sentido da vida. Infelizmente, no decorrer do desenvolvimento da sociedade capitalista e a constante alienação do trabalhador em constante exploração de sua força de trabalho, tal síntese se mostra cada vez mais impedida em se estruturar completamente, devido a uma barreira idílica, profana, veloz como o motor de uma fábrica.

O capitalismo consome o amor e reproduz abstratamente a efemeridade de paixões interpretadas como ideias fixas, próprias para o consumo, feitas sob medida. Os opostos e os iguais não se atraem. Não existe atração. Existe fome. Qual o tipo de “amor” que mais sacia seu desejo carnal? O espírito se estreita no progresso do sexo consumido.

Antes de encerrar este difícil ensaio, gostaria de realizar uma discussão a respeito desse breve poema livre de Walt Whitman “Sou Aquele Que Sofre Com o Amor”:

“Sou aquele que sofre com o amor apaixonado; A terra gravita? Toda matéria, sofrendo, não atrai toda matéria? Assim o meu corpo a todos que encontro ou conheço.” (WHITMAN, W. p. 159)[vii]WHITMAN, W. Folhas de Relva. 1 ed. Tradução: Gentil Saraiva Junior. Rio de janeiro, RJ: Fundação Biblioteca Nacional, 2009. p. 159

Apenas a liberdade de um poeta como Walt Whitman para reproduzir a estética fiel ao amor. Toda matéria, que sofre, atrai matéria. Para haver atração, é necessário o sofrimento dos corpos em completo choque material. A melancolia, a solidão, o sofrimento, são necessários para a constituição da matéria vivente. O amor, enquanto objetivo, figura-se em sua superação, mas nunca no abandono da nostalgia. Não um parasitismo, mas uma cooperação.

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O amor coopera com seu elo mais fraco, a nostalgia, e esta o retribui com a solidão, que estrutura a forma abstrata da vida em sociedade, do idílio. A solidão é necessária. Duas solidões dialogando no vazio das ideias, protegendo-se com seus respectivos sofrimentos, significam a vida, através do amor apaixonado.

Eu sofro com a minha solidão, eu protejo a minha solidão. Eu amo. Versos livres e metrificados, em completa dialética, galgam a natureza daquilo que caracteriza a natureza do amor, longe do idílio das confissões vãs. Por isso é extremamente difícil realizar uma grande sociologia do amor, pois o amor social é apenas a expressão de constantes reproduções da literatura melancólica, um amor profano, numa péssima interpretação, pois é generalizada. O amor é melancólico, poético, que foge do idílio e repousa na relva da solidão. Se os sociólogos tanto desejam estudar a sociologia do amor, primeiro precisam interpretar a microssociologia do Eu, romantizar o Eu, para então pensar e transformar a bruta e imatura sociologia, em uma estudo de caso do amor.

Aqui está o elogio à solidão, num mundo onde a positividade estreitou nossas almas, e assassinou os meios de se buscar o amor significante da vida, que se possa confessar, sem sofrer com o suplício do olhar julgador. Busque o amor, mas primeiro busque a solidão. Nenhum Prozac auxiliará sua completa busca por significado. Apenas a solidão da vida exterior, para a socialização material da vida. Autoconhecimento, conhecer seu sofrimento, sua solidão, seu “amor verdadeiro”, para aí conhecer a vida.

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Notas de rodapé

Notas de rodapé
i GOETHE, J.W. Os sofrimentos do jovem Werther. 2 ed. Tradução: Leonardo César Lack. Coleção: Clássicos Abril Coleções, vol. 7. São Paulo, SP: Abril Cultural, 2010. p. 13
ii LUKÁCS, G. A Alma e as Formas. 1 ed. Tradução: Rainer Patriota. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora, 2017. p. 91
iii GOETHE, J.W. Os sofrimentos do jovem Werther. 2 ed. Tradução: Leonardo César Lack. Coleção: Clássicos Abril Coleções, vol. 7. São Paulo, SP: Abril Cultural, 2010. p. 14
iv Idem, p. 133-34
v Ibidem, p. 159
vi Ibidem, p. 149
vii WHITMAN, W. Folhas de Relva. 1 ed. Tradução: Gentil Saraiva Junior. Rio de janeiro, RJ: Fundação Biblioteca Nacional, 2009. p. 159

Referências

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Paiva, Rafael. Elogio da solidão: sobre o amor e a sociedade. Forca de Judas, Porto Alegre, v. 2, n. 3, 2022. Disponível em: <https://revista.judasasbotasde.com.br/322022/elogio-da-solidao-sobre-o-amor-e-a-sociedade/>. Acesso em 17-07-2024

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