Invasão do Capitólio em 2021: Michael Nigro/AFP
3 min.

Trump, fascismo, populismo e a normalização democrática de Biden

O que então precisa fazer Biden na hora de tomar posse? Muitos analistas confiam na ideia schumpeteriana que a democracia tem os anticorpos para derrotar a patologia populista, ou seja o populismo é eficaz na hora de questionar o processo democrático, mas na hora de governar não sempre consegue fazer a mediação entre os interesses em conflito
Nápoles, Itália
fabiogentile@judasasbotasde.com.br

A invasão do Capitólio por grupos de “trumpistas” levou muito cientistas e analistas políticos a utilizar a categoria de “golpe fascista”.

Se o filósofo alemão Hegel tivesse acompanhado os acontecimentos estadunidenses teria convidado a um maior rigor científico na análise da realidade norteamericana. Ele teria lembrado que a ciência se faz sobretudo destacando as diferencias entres os fenômenos, para não cair “na noite em que todas as vacas são pretas” – é a poderosa metáfora utilizada por Hegel na Fenomenologia do Espírito para criticar o Absoluto indistinto de Schelling.

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A metáfora hegeliana pode trilhar o caminho da ciência política em busca de categorias para dar conta de forma adequada da ascensão de líderes populistas de extrema direita na atual conjuntura marcada pela crise da democracia liberal representativa. E não há dúvida que fascismo pode ser uma delas. Porém, como afirma o grande historiador francês Marc Bloch, o que marca o avanço das ciências sociais são as singularidades de cada fenômeno a partir da comparação entre fenômenos análogos.

Precisamos então ressignificar o fascismo, dado que esta categoria – como todas as categorias da teoria política – foi pensada para dar conta de um determinado fenômeno ideológico-político entre as duas guerras mundiais, se tornando logo depois uma categoria “cientifica” na classificação de fenômenos que podem ser colocados no “idealtipo” fascista.

Nesta perspectiva, por um lado, fascismo nos ajuda a entender fenômenos da nossa conjuntura, à medida que ele, bem como a democracia liberal-representativa e o populismo, é um produto da sociedade de massa, e, portanto, pode ser sempre uma sedução para as massas, uma vez que elas estão em busca de novos líderes diante a crise da democracia contemporânea.

Sem dúvida o que aconteceu nos EUA no início de janeiro apresenta analogias com o fascismo. Fenômenos quais Trump e o trumpismo, Bolsonaro e bolsonarismo se aproximam ao fascismo na manipulação da média e na mentira come pilar fundamental do próprio projeto ideológico-político. É notório que o fascismo foi o primeiro grande regime capaz de controlar os meios de comunicação no seu projeto de mobilização total das massas. 

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Também, o fascismo, per ser uma ditadura moderna de massa, marcada para uma mistura inovador de ideologia, terror e violência,  acabou se tornando o paradigma para todos os fenômenos autoritários e neofascistas desde o fim da segunda guerra mundial e até hoje.   

Por outro lado, porém, é preciso ressaltar que a composição social dos “trumpistas” é bem diferente do fascista clássico. O “trumpista” pertence a uma nova direita ultra individualista e antistatalista, enquanto o fascismo clássico tem um projeto de estado social, totalitário, que pretende organizar a vida das massas. 

Conforme argumentado pelo historiador argentino Federico Finchelstein no livro Do fascismo ao populismo na história (Editora 70, 2020), seria então mais interessante utilizar a categoria de populismo, visto que fenômenos quais o “trumpismo” e o “bolsonarismo” são produtos da crise da democracia contemporânea, porém não querem golpeá-la de fora. Eles querem destruir a democracia por dentro (pelas eleições por ex.), atacando em qualquer circunstância os valores constitucionais, e no caso do Bolsonaro elogiando a ditadura militar.

A erosão quotidiana da democracia vem sendo feita pelos líderes populistas agindo dentro das próprias instituições liberal-democráticas. Trump e Bolsonaro, mesmo estando no poder, se representam e representam o próprio eleitorado como “vitima” da velha politicagem corrupta e ineficiente. Isso nos ajuda a entender melhor as motivações dos “trumpistas” invadindo o Capitólio. Tirando algumas minorias nazifascistas, a maioria deles extariam então questionando a “farsa” do processo eleitoral da maior democracia ocidental, entregue a uma classe política corrupta, representada por Biden, o Partido Democrata, e setores da mídia norteamericana.

O populismo, que no caso de Trump e Bolsonaro incorpora alguns traços nazifascistas, é isso mesmo: uma resposta antipolítica (que é sempre um projeto político) à sociedade de massa em busca de novas representações na crise da democracia.

O que então precisa fazer Biden na hora de tomar posse? Muitos analistas confiam na ideia schumpeteriana que a democracia tem os anticorpos para derrotar a patologia populista, ou seja o populismo é eficaz na hora de questionar o processo democrático, mas na hora de governar não sempre consegue fazer a mediação entre os interesses em conflito.

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Se o Maquiavel pudesse ser o consultor do “Principe” Biden, sugeriria em primeiro lugar ao novo presidente dos EUA de pacificar o conflito e normalizar a democracia ferida, dado que ele vai ser o presidente de todos os cidadãos estadunidenses. Além de ser o primeiro cidadão “virtuoso”.

No fundo, a democracia é também a arte do “bom governo”.

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Referências

  1. Frederico Finchelstein. Do fascismo ao populismo na história. São Paulo: Editora 70, 2019
  2. George Wilhelm, Friedrich Hegel [1807]. Fenomenologia do espírito. São Paulo: Editora Vozes, 2014.
  3. Marc Bloch [1949]. Apologia da história. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2001.
  4. Joseph Schumpeter [1942]. Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961.
  5. Nicolau Maquiavel [1532]. O Príncipe. São Paulo: Edipro, 2018.

Cite-nos

Gentile, Fabio. Trump, fascismo, populismo e a normalização democrática de Biden. Forca de Judas, Porto Alegre, v. 2, n. 1, 2021. Disponível em: <https://revista.judasasbotasde.com.br/212021/trump-fascismo-populismo-e-a-normalizacao-democratica-de-biden-2/>. Acesso em 17-07-2024

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