Evangélicos: Rede Brasil Atual
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Evangélicos no poder, e agora? Um olho no peixe, outro no gato

Por muito tempo reduzidos ao estigma vulgar de “coisa de alienado” e “gente pobre burra”, os evangélicos cresceram, e estão aí. Quem não viu, perdeu, playboy. E se tu ainda pensas sobre como seria se os evangélicos chegassem ao poder no Brasil, perdeu novamente, girl
Alagoas, Brasil
marcospaixao@non-user.com.br

“Um olho no peixe, outro no gato”, é uma pérola do dito popular que alerta: focar demais numa coisa, esquecendo outra, nos deixa a mercê de surpresas. Na mesma brisa, em grandes cidades do sudeste, se popularizou a expressão “perdeu, playboy”, supostamente dita quando alguém toma, de surpresa, o objeto do incauto. Vai vendo…

“Evangélico” e “crente” são termos genéricos usados pelo senso comum para denominar todo cristão não-católico, cuja igreja tem matriz pentecostal ou neopentecostal. Não é vão que “os crentes” se incomodem com essa classificação, talvez pejorativa, que simplifica o caráter diverso de suas denominações. Entretanto, como em todo enunciado popular com significado, tais termos têm lá o seu poder comunicativo. Usarei com as devidas ponderações.

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Repare bem. O movimento neopentecostal vem do pentecostalismo histórico, norte-americano, surgido lá por volta de 1920. Esses pentecostais, eminentemente negros, partilhavam a crença de que Deus – aquele mesmo dos hebreus –, por intermédio do Espírito Santo e em nome de Cristo, se manifestava tal qual nos tempos do chamado cristianismo primitivo, isto é, promovendo curas e milagres. Nessas igrejas rolava exorcismo, crença na interpretação literal dos textos bíblicos, a cura, e a glossolalia – aquilo que o povo chama de “falar em línguas estranhas”. (Favor não confundir com os discursos de um certo presidente). Quer saber mais, dá uma googlada e pesquisa sobre “o dia de pentecostes”.

As primeiras missões pentecostais no Brasil são auxiliadas por missionários norte-americanos e europeus. O pentecostalismo cresceu se embranquecendo, negando às mulheres negras o uso de uma estética afro, ao passo que louvava os longos cabelos soltos, “véu das mulheres” brancas. No mais, a ordem era do decoro e do pudor estético, bem avesso a sociedade envolvente.

Tempo passa, tempo voa, e inventamos a nossa versão de pentecostalismo, construindo o que os cabeções da sociologia chamarão de “neopentecostalismo”. Isto é um movimento originalmente brasileiro, datado a partir dos anos 1970 com o surgimento de denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Internacional da Graça.

Embora não possamos falar de corpo doutrinário único, o neopentecostalismo tem similaridade com alguns elementos do pentecostalismo histórico que vimos acima. Entretanto, no Brasil, existem novidades como a teodiceia contra as religiões não-evangélicas – em particular as de matriz africana – e aquilo que os intelectuais adoram criticar, a tal “teologia da prosperidade”, ou seja, a possibilidade e necessidade do fiel conciliar o crescimento espiritual ao crescimento material, usufruindo de tudo ainda aqui no mundo.

Por muito tempo reduzidos ao estigma vulgar de “coisa de alienado” e “gente pobre burra”, os evangélicos cresceram, e estão aí. Quem não viu, perdeu, playboy. E se tu ainda pensas sobre como seria se os evangélicos chegassem ao poder no Brasil, perdeu novamente, girl. Perdeu por focar nas lideranças e ignorar a fé do povo, achando que o poder é apenas a ocupação de espaços socialmente valorizados.

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Em um amplo e concorrido mercado religioso – metáfora que tomo de empréstimo do sociólogo Reginaldo Prandi – onde as igrejas neopentecostais estão na frente, homens e mulheres exercem poder micro, aquele do/a tio/a que ensina rezar para papai do céu já na pré-escola. Violência didática, não é? No cotidiano, a laicidade morre, aos poucos, de morte matada.

Religião é ethos, uma forma de conduta corpóreo/cognitiva que orienta o ser no mundo. Não é raro que o indivíduo religioso pense – por ma-fé (autoengano) ou por crença de fato – que têm certas missões a cumprir e um lugar pré-definido em sua passagem no plano secular. Neto que fui de avó pentecostal, lembro de uma infância povoada por relatos fantásticos sobre demônios saindo do televisor e outras coisas do tipo. Era um mundo mágico, onde o temor residual sobrevivente em mim se adaptava ao fluxo tecnológico-burocrático que nos afastou da Modernidade desencantada, provocativamente imaginada por Weber. Nosso lugar nesse mundo era o da expiação dos pecados vividos desde Adão, ainda mais fortes em nós, pretos, herdeiros da maldição de Caim.

O demônio e as igrejas estavam por toda parte. Em meus amigos, antes ou depois do primeiro crime. Também nos demais. “Igrejas são melhores do que bares”, diziam. Talvez. Na hora da “Palavra” do pastor, os assuntos cotidianos encadeavam a comunicação. Política institucional passava longe. Foi assim que o Brasil dos anos 80 se tornou 90. Muda a sociedade, muda a Palavra. O repertório secular, combatido com oração, jejum e fortalecimento econômico da igreja via “ofertas” (qualquer quantia dada pelos fiéis no momento do culto), foi acrescido das arengas da política institucional.

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”, está escrito no evangelho de Mateus. Aos poucos, em minha volta, as criaturas (ladrões, proletários, prostitutas, traficantes…) “se convertiam” em crente. Seria uma contradição à “parábola do semeador”, mostrando que certas plantas brotam sobre as pedras? Ou, ao contrário, a demonstração de que o evangelho é capaz de erodir rochas, tornando fértil o solo árido? Por um ou por outro, vi cristãos descerem o fundo da baixada onde as ONG’s não chegam e a polícia pedia/pede licença para passar.

Evangelizar, como verbo, caminha junto a comunicação. Se a memória dos sons evangélicos de minha infância eram músicas de temática rurais, emulando a pessoa comum em sua saga da provação/superação em Cristo, a adolescência, ao contrário, foi povoada pelos “funks”, “sambas” e “rocks de Cristo”. A TV, veículo “do cão”, virou “de Cristo” e dos Crentes. Nos anos 90/2000, a Palavra chegava massivamente a todas as criaturas pela “babá eletrônica” dos filhos das classes pobres, a TV.

A primeira vez em que ouvi falar sobre “bancada evangélica”, pesquisei e pensei que era uma ficção intelectual. Não haveria, àquela altura, evangélicos articulados estrategicamente, tendo em vista a defesa de um projeto econômico e social de Estado, mas junções táticas em defesa das pautas morais. Eram os anos 2000 e talvez eu tivesse alguma razão.

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Hoje, entendo diferente. O posicionamento político-institucional dos evangélicos vem numa crescente contraposição a lideranças do espectro identificado como esquerda, um dado novo em proporção. Cada vez mais o discurso evangélico adentra a política institucional extrapolando as questões morais, sendo, junto com o anticomunismo e o libertarianismo, um dos ingredientes que Luis Felipe Miguel identifica como responsáveis pela reemergência da direita brasileira. Discussões sobre políticas públicas passam a ser disputadas tendo em vista princípios religiosos e, em casos extremos, anticientíficos. Decisões acerca da política econômica bebem na teologia da prosperidade, onde se inventa o “sucesso individual” como produto do mérito subjetivo e da gramática do empreendedorismo.

Claro que os crentes não estão todos no mesmo saco conservador. De outro lado, em um misto de autocrítica e paternalismo, vejo muita gente progressista dizer que não podemos criticar o “todo crente”, dado a qualidade das pequenas partes de evangélicos progressistas e de suas lutas intestinas. Pois bem. Eu penso que evangélico progressista é como o time do Bahia na primeira divisão. Precisa ser mais que um símbolo.

Curioso é interpelar um evangélico progressista a respeito da ala conservadora. Soluções como “orar”, ou dizer que seu irmão nazi distorceu a palavra de Deus, podem ser teologicamente adequadas no doutrinário cristão, mas não o são sociologicamente. Assim como “a esquerda”, “o movimento negro” e “o movimento feminista”, por exemplo, respondem pelas posições históricas de seus coletivos, é preciso requerer posições mais firmes dos evangélicos, tendo em vista a autocrítica, as ações nas lutas progressistas e na reconstrução de uma laicidade possível. Enquanto isso, sigo atento, “um olho no peixe, outro no gato”. Nos vemos numa encruzilhada.

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Paixão, Marcos. Evangélicos no poder, e agora? Um olho no peixe, outro no gato. Forca de Judas, Porto Alegre, v. 2, n. 1, 2021. Disponível em: <https://revista.judasasbotasde.com.br/212021/evangelicos-no-poder-e-agora-um-olho-no-peixe-outro-no-gato/>. Acesso em 17-07-2024

82 respostas

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